quinta-feira, 28 de janeiro de 2010
Ensaio para conto curto I
Guilherme escrevia em seu caderno uma frase sem graça. Sentado em um precipício à beira da praia - cenário padrão -, não fumava um cigarro, mas comia chocolate. A bailarina girava, saltava, abria as pernas em sua memória e na sala de estar. Ele a observava de longe, com sua lembrança e seu binóculo. Subiu as escadas do prédio baixo - o porteiro dormia. Apertou todas as outras três campainhas do quinto andar até encontrar, na quarta e última, uma desconfiada garota, cujo rosto parecia muito maior agora. Abruptamente, com um gesto que não era típico seu, empurrou a porta e selou a boca da jovem, abafando um precipitado grito. Pediu-lhe, com sua ridícula e cortada fala, uma sapatilha. Era tudo o que queria. Apertando a conquista macia nas mãos - ela cedera -, largou a caneta e despencou no mar, deixando este desfecho clichê gravado em seu caderno; ao lado da embalagem vazia do chocolate.
domingo, 27 de dezembro de 2009
deus, Gennaro e o diabo
Na mesma mesa em que, na semana anterior, encontrou deus, Gennaro bebe um copo de leite com chocolate. Dois minutos depois, entram dois homens, trazendo consigo, durante três segundos, os moribundos ruídos da rua.
Um deles, vestindo jeans e camiseta escuros, avista-lhe e faz um sinal: "espera!". Ambos, no balcão, pedem bebidas e dirigem-se à mesa de Gennaro, que, gradativamente, reconhece seu parceiro de conversa da semana passada.
- "Oi Gennaro, tudo bem? Esse é um colega, o diabo."
- "Muito prazer" - disse o diabo, sujeito imponente e elegante em seu terno bem dosado. Não sabendo como reagir, Gennaro acenou com a cabeça, sorriso contido.
- "Estávamos discutindo trivialidades, Gennaro!" - disse deus.
- "Exato. E esse desnaturado me acusa de cada coisa, cada coisa!" - retrucou o diabo.
Como é possível imaginar, engatado o assunto, Gennaro passou de participante a mero espectador, mantendo sua tradicional simpatia por deus.
- "Pessoas gastando milhões, comprando coisas de que não precisam, em nome de quem? Em seu nome, em homenagem a você! E então?" - atacou o diabo, sorrindo com a mão no queixo.
- "Você! Você é o manipulador destas pessoas. As propagandas, a construção do mito, a figura ridicularizada que temos de um obeso e moralista Papai Noel, tudo, tudo isso é criação sua!"- replicou deus, tragando um gole de sua tônica.
- "Ah, pois! Sim, vamos! A culpa é do diabo. Tudo é culpa do diabo. Use o mesmo discurso que eles! - disse, bebericando seu suco de laranja e apontando para os frequentadores do bar - "Se é algo bom, 'graças a deus'! Se é algo ruim, 'amarra e tira o demônio'! Não é assim?"
Deus preparava-se para tentar responder, mas o diabo, calmamente, continuou:
- "Vou dizer, então, uma coisa. Tem muita gente por aí, R.R. Soares, Edir Macedo e mais milhões de pastores e ovelhinhas que me odeiam. Odeiam mesmo, de raiva, de babar, de sangue. Se não fosse a ioga e o pilates eu estaria bastante deprimido, sabia? É verdade!"- nesse momento, deus, que era um cara sensível, fez que ia chorar. O diabo não deixou:
- "Ora, deixe que eu termine, sim? Não chore, não tenha dó de mim. Sou bastante self-assured, obrigado. Enfim, esses caras tiram dinheiro das pessoas, muitas delas endividadas pelo Natal, pelo IPVA, pela parcela da casa ou até pelo arroz que não têm! Tiram dinheiro falando em seu nome, dizendo que é para a obra de deus. E então, colega? Eles me odeiam! Não tenho nada a ver com isso! O que você me diz?"
Pois deus, na mesma mesa, com a mesma expressão, desconcertou-se. Correu em direção à mesma porta e fugiu, sem pagar a conta novamente. O diabo, com o rosto meio desolado, meio divertido, comentou com Gennaro:
- "Ele é assim, sonso, se finge com as perfeições. Mas é um cara legal. Espero que eu não o tenha magoado. Mais tarde telefono. Adeus, Gennaro, foi um prazer."
Pasmo, Gennaro conseguiu somente balbuciar um "prazer foi todo meu" e pedir uma tequila. Sua concepção dicotômica do mundo fora abalada. Nada é perfeito? Nada é bom? Ora, mas se também nada é totalmente mau, como ass, e ag..?
Ficaria mais três horas pensando, pagaria a conta e iria para casa.
Um deles, vestindo jeans e camiseta escuros, avista-lhe e faz um sinal: "espera!". Ambos, no balcão, pedem bebidas e dirigem-se à mesa de Gennaro, que, gradativamente, reconhece seu parceiro de conversa da semana passada.
- "Oi Gennaro, tudo bem? Esse é um colega, o diabo."
- "Muito prazer" - disse o diabo, sujeito imponente e elegante em seu terno bem dosado. Não sabendo como reagir, Gennaro acenou com a cabeça, sorriso contido.
- "Estávamos discutindo trivialidades, Gennaro!" - disse deus.
- "Exato. E esse desnaturado me acusa de cada coisa, cada coisa!" - retrucou o diabo.
Como é possível imaginar, engatado o assunto, Gennaro passou de participante a mero espectador, mantendo sua tradicional simpatia por deus.
- "Pessoas gastando milhões, comprando coisas de que não precisam, em nome de quem? Em seu nome, em homenagem a você! E então?" - atacou o diabo, sorrindo com a mão no queixo.
- "Você! Você é o manipulador destas pessoas. As propagandas, a construção do mito, a figura ridicularizada que temos de um obeso e moralista Papai Noel, tudo, tudo isso é criação sua!"- replicou deus, tragando um gole de sua tônica.
- "Ah, pois! Sim, vamos! A culpa é do diabo. Tudo é culpa do diabo. Use o mesmo discurso que eles! - disse, bebericando seu suco de laranja e apontando para os frequentadores do bar - "Se é algo bom, 'graças a deus'! Se é algo ruim, 'amarra e tira o demônio'! Não é assim?"
Deus preparava-se para tentar responder, mas o diabo, calmamente, continuou:
- "Vou dizer, então, uma coisa. Tem muita gente por aí, R.R. Soares, Edir Macedo e mais milhões de pastores e ovelhinhas que me odeiam. Odeiam mesmo, de raiva, de babar, de sangue. Se não fosse a ioga e o pilates eu estaria bastante deprimido, sabia? É verdade!"- nesse momento, deus, que era um cara sensível, fez que ia chorar. O diabo não deixou:
- "Ora, deixe que eu termine, sim? Não chore, não tenha dó de mim. Sou bastante self-assured, obrigado. Enfim, esses caras tiram dinheiro das pessoas, muitas delas endividadas pelo Natal, pelo IPVA, pela parcela da casa ou até pelo arroz que não têm! Tiram dinheiro falando em seu nome, dizendo que é para a obra de deus. E então, colega? Eles me odeiam! Não tenho nada a ver com isso! O que você me diz?"
Pois deus, na mesma mesa, com a mesma expressão, desconcertou-se. Correu em direção à mesma porta e fugiu, sem pagar a conta novamente. O diabo, com o rosto meio desolado, meio divertido, comentou com Gennaro:
- "Ele é assim, sonso, se finge com as perfeições. Mas é um cara legal. Espero que eu não o tenha magoado. Mais tarde telefono. Adeus, Gennaro, foi um prazer."
Pasmo, Gennaro conseguiu somente balbuciar um "prazer foi todo meu" e pedir uma tequila. Sua concepção dicotômica do mundo fora abalada. Nada é perfeito? Nada é bom? Ora, mas se também nada é totalmente mau, como ass, e ag..?
Ficaria mais três horas pensando, pagaria a conta e iria para casa.
quarta-feira, 16 de dezembro de 2009
Deus e Gennaro
Num desses encontros fortuitos, Gennaro dividiu a mesa com deus. Em meio a discussões acaloradas sobre futebol, resolveu, insolitamente, perguntar:
-- Deus, por que você existe?
Silêncio total.
Deus chorou. Era o maior paradoxo do mundo: não sabia o porquê de sua existência.
Nas letras divinas, segundo os pastores, padres e bêbados do metrô, estão todas as respostas, mas nada trata da pergunta de Gennaro.
Deus saiu correndo sem pagar a conta. E Gennaro, que aprendera a venerá-lo desde a infância, não perderia o encanto agora - ainda mais quando deus declarara em alto e bom som: "sou Palmeiras, meu!".
Deus, então, continuou existindo, por ser.
-- Deus, por que você existe?
Silêncio total.
Deus chorou. Era o maior paradoxo do mundo: não sabia o porquê de sua existência.
Nas letras divinas, segundo os pastores, padres e bêbados do metrô, estão todas as respostas, mas nada trata da pergunta de Gennaro.
Deus saiu correndo sem pagar a conta. E Gennaro, que aprendera a venerá-lo desde a infância, não perderia o encanto agora - ainda mais quando deus declarara em alto e bom som: "sou Palmeiras, meu!".
Deus, então, continuou existindo, por ser.
sábado, 22 de agosto de 2009
Buena Vista Social Club - Win Wenders
Como documentário, o filme Buena Vista Social Club, de Win Wenders, é mais uma exaltação do trabalho de Ry Cooder que uma investigação acerca da trajetória dos artistas cubanos. Sendo razoável, poderia dizer que o filme - apesar, é claro, de ser uma obra independente - exerce um papel de "continuador" do que fez Cooder.
Ry Cooder, guitarrista e produtor musical dos EUA, elaborou, em meados da década de 1990, um projeto que visava juntar músicos cubanos outrora bem sucedidos mas sobre os quais não se tinha mais notícias. Muitos se haviam aposentado; outros estavam mortos. Mas artistas como Ibrahim Ferrer, Compay Segundo, "Barbarito", Rubén González e Omara Portuondo se reuniram a Cooder e a seu filho Joaquim para grava um álbum, intitulado, vejam só, Buena Vista Social Club. Álbum que foi bem sucedido mercadologicamente falando e rendeu um prêmio Grammy em 1998. Não que isso represente méritos incontestáveis, mas o disco é realmente bem acabado.
Ibrahim Ferrer, cantor cubano nascido em San Luís, chamou a atenção de Ry Cooder, sendo definido pelo mesmo como "uma daquelas coisas que só acontecem uma vez na vida". Por isso, o produtor resolveu gravar um disco solo com o intérprete. Disco que contou, no fim das contas, com a participação de muitos dos artistas que estavam no álbum gravado anteriormente. Aí começou o trabalho de Win Wenders, que filmou as gravações em estúdio, entrevistou os artistas em Havana e registrou concertos ocorridos em Amsterdã e Nova Iorque. Tudo com a sombra sempre presente de Ry Cooder - seja em primeiro plano dizendo "perfect, it was what we need" após a execução de uma música, seja em segundo plano (belo ângulo de câmera!) observando os músicos cubanos sendo aplaudidos.
Este é o filme: a história do(s) projeto(s) de Ry Cooder com os músicos cubanos.
Wenders constrói o documentário mesclando os depoimentos dos músicos (não todos) participantes do álbum, as imagens dos shows de Amsterdã e Nova Iorque e imagens da vida cotidiana da cidade de Havana em 1998.
Imagens belíssimas, bem selecionadas e compostas, abundam na película. Talvez reflitam uma certa estupefação do cineasta diante de sua imersão em um mundo diferente de sua fria Alemanha. Algo parecido com a estupefação de Ibrahim Ferrer em sua primeira visita, já no bojo da senilidade, a Nova Iorque - embora as bases das duas exaltações sejam diferentes.
Um aspecto negativo é a presença quase irritante da figura de Cooder. Poderíamos desejar, na verdade, que o filme tratasse mais dos artistas e da cultura cubana que do trabalho de resgate dos mesmos por Cooder. Mas - e agora quero, quem sabe, me contradizer - isso não é possível. O objetivo do filme foi registar as atividades de Cooder, exaltando-nas e, de uma certa maneira, complementar sua produção com um documentário. O filme cumpre este objetivo e fecha seu ciclo com Ry Cooder recebendo a ovação da plateia do Carnegie Hall de Nova Iorque. Pode ser enfrentado como uma viagem a Havana, a uma Havana que encanta, fascina e instiga, comichando os sentidos, relembrando um passado que é presente; cada vez menos.
quinta-feira, 13 de agosto de 2009
Olhei-a com cara de cachorro brabo. Minha reação condicionada para com pessoas que lêem o que estou lendo no ônibus. Após anos de transporte coletivo desenvolvi um peculiar ódio pelo gênero humano. A garota abaixou os olhos e num átimo de segundo voltou-se novamente para mim com uma expressão assustada. Amuei. Não refletira antes do gesto primeiro e agora me envergonhava. Tentei consertar tudo: posicionei o livro como que de lado, para que os dois pudessem ler. Discretamente, espiei: lia, a moça. Senti felicidade e pude mergulhar novamente nas páginas. Era Camus. Meursalt vivia um domingo que se arrastava após a morte de sua mãe. Seu tempo não era veloz e a monotonia de céu e terra observada ali não se repetia ao meu redor. Mas eu estava junto a Meursalt. Imagino que a moça a meu lado também. Desci do ônibus e há cinco minutos meu crônometro já voltara a ser o meu. O da garota, o dela. O de Meursalt estava em minha mochila. Senti vontade, já na rua, de sorrir para a menina do ônibus. Agradecer, sei lá. Mas o congestionamento em São Paulo tem vida própria, seu próprio tempo. Eu tinha pressa; ela, não sei; mas o tráfego definitivamente não.
quarta-feira, 12 de agosto de 2009
Os acionistas da seguradora que administra o meu plano de saúde têm motivos de sobra para me odiar. Afinal, quantas vezes supõe-se que um menino [?] saudável [é...] de 20 anos acionaria seu plano em menos de um ano? Não quero a resposta, mas fiz isso dez vezes. Rins, uretra, olhos, sinos da face, tomografia, litotripsia e alguns exames de sangue. Nada que os empobreça, mas nunca se sabe o que é para eles a pobreza. Mesmo assim, não me atingem tão fácil: o tempo de espera de meia hora que suportei na minha última consulta se deveu mais ao atraso da médica que à ira dos endinheirados seguradores da saúde - embora confluências cósmicas me levem a crer que esta tenha auxiliado na quebra do carro da minha neurologista.
O Estado de São Paulo, porém, deve odiar seus doentes. E esta ira cai veloz e sem intermediários. Aliás, com intermediários, sim. O primeiro deles é o atendente que diz: "o tempo de espera para atendimento está sendo de quatro horas hoje"; depois tem o cara do raio-x: "xi, pode dar uma volta que vai demorar umas 3 horas; ah, braço quebrado, né? aguenta firme aí". Na sala de espera, uma ironia: a novela da Globo mostra seu hospital de última geração, como quem diz: "essa é a vida boa; vocês não conseguiram; fodam-se". Não é errado ter plano de saúde (seria um idiota dizendo isso), assim como não é errado ter dinheiro (embora eu desconfie de toda grande fortuna). Mas também não é certo que tanta gente tenha que sentir cheiro de merda sonhando com o hospital da Globo. Não monto aqui uma relação de causa e efeito, nem de culpabilidade. Mas queria realmente entender o porquê do ódio do Estado. Afinal, nem todo cara de 20 anos usa tanto o hospital assim.
segunda-feira, 13 de julho de 2009
morte
Caindo, ajeitou-se na calçada sem atrapalhar os transeuntes. Sentia que, chegada a hora, não mais evitaria - e não falo de destino, somente. Setenta e sete anos indagando-se sobre o que faria ali, no momento. A vida é conjuntura. O mundo cuja estrutura o engolia não merece, pensou, uma luta. Tomou a decisão. Não. Nada. Essa era a resposta. Prepotência que anda junto com todos os individualismos? A resposta é pessoal. A luta também. Essa é a dimensão da vida: a conjuntura, o pequeno cenário que na estrutura se monta. Até o momento em que as lâmpadas esfriam por falta de sangue.
quinta-feira, 9 de julho de 2009
Tempos
Faz tempo que não escrevo algo por aqui, não é mesmo, meus queridos leitores inexistentes?
São tempos de desilusão para mim, onde as pessoas e as utopias não se me apresentam mais com sentido.
Onde escrever demais é bobagem - prolixa- e escrever de menos é concisão, nunca pobreza.
Onde pensar demais é vedado e agir demais é bobagem.
Onde ser favorável é ser partido.
Os tempos, repito, são de desilusão. Perdi a magia da esperança que durou até os vinte anos.
"Será que vamos morrer votando no PSDB?", eu perguntei a um amigo quatro anos atrás. Talvez não isso, mas hoje, entendendo mais que o problema está nas raízes profundas do ser humano - e isso todos somos - meu voto é nulo, é vazio. Não confio em nada que seja parecido comigo ou com vocês - com todos.
Meu voto é nulo para o resto da vida, que durará até ser-me tirada - por mim, por você, por não sei quem.
domingo, 5 de abril de 2009
Garapa
Crises de [má] consciência. É este o fenômeno comumente provocado nos espectadores por documentários a respeito de temas como fome, violência, tráfico [e uso] de drogas. A recente produção de José Padilha, Garapa, não gerou reações muito diferentes. Claro que, ao afirmar isso, fico em uma situação delicada, pois não tenho como me excluir das possíveis acusações que farei [encontrem-me sempre nelas, por favor] e isso é essencial para que exista sinceridade nas palavras que escreverei sobre o filme.
Gosto de documentários que "mostram" e não de documentários que "demonstram". Defender uma tese em um filme é o primeiro passo em direção ao maniqueísmo, à divisão simplificadora entre "maus" e "bons". Arrisco-me a dizer que, em pelo menos 95% do filme, o diretor seguiu o primeiro caminho. Não digo que o filme todo é "mostrativo" porque há momentos em que a resolução da cena é guiada pelo ser localizado por trás da câmera - inclusive, e lanço aqui a polêmica, sem julgar ou defender coisa alguma, com uma possível defesa de programas governamentais. Mesmo assim, algo que me deixou feliz foi a ausência do recurso fácil à comparação: "esse é a parte rica"; "essa é a parte pobre"; "a+b = a culpa é de 'x'". Em suma, pode-se colocar o documentário na categoria dos que querem "mostrar". É o que faz: mostra. Isso reflete-se inclusive em aspectos técnicos como a filmagem. Em alguns momentos, a câmera torna-se "seguidora" da situação que se desenrola sem o controle (e, arrisco, a previsão) de quem está por trás dela. Ela quer mostrar. Um outro aspecto que cito, e aqui atiro-me ao fogo por ser uma conclusão totalmente pessoal, é a ausência de trilha sonora. Não há a tentativa de sensibilizar o espectador a partir de elementos musicais. À exceção das pessoas que falam, os únicos sons presentes são os do ambiente (que, em muitos casos representam o papel da própria fome/miséria - como no momento em que a "garapa" é fervida, misturada e colocada em copos e mamadeiras)
Não contarei a história do filme. Ela está interessantemente sintetizada na boa resenha "Estética da Fome", de Saulo Yassuda, publicada no site "Cinéfilos" (http://jjunior.org.br/cinefilos/?p=1612). Dialogo brevemente com tal escrito, discutindo o conceito de "estética da fome" (colocado pelo autor, que inicia sua argumentação citando o conceito de "estética da miséria"). Entendo que a caracterização de tal conceito encontra-se resumida neste parágrafo da resenha: "É também de Padilha a direção do documentário Garapa, outro filme mostra a miséria de maneira estilizada para torná-la mais digerível. Mas a diferença é que, em Garapa, a miséria é real, é documentada com três famílias de verdade que moram no Ceará. A diferença é que em Garapa o diretor não carrega nas cores - muito pelo contrário: não há cores. O filme é rodado todo em preto e branco, alto contraste entre a duas tonalidades, o que lembram muito fotos de Sebastião Salgado, que também retrata a miséria. A falta de cores estiliza a miséria, deixa-a mais 'artística', mas não deixa de chocar." Problematizo aqui o conceito de estilização da miséria em Garapa com o objetivo de torná-la mais digerível. Penso ser o contrário! Existe, sim, como bem aponta Saulo, uma estilização, e ela é, sim, feita, entre outros aspectos, a partir da ausência de cores, com uma "miséria real" (complemento isso com um comentário: "sem atores da Globo, como, por exemplo, em Tropa de elite). Concordo com tudo isso. Mas tais características do filme trabalham no sentido de reforçar um estranhamento, e não de amenizá-lo. Tanto que o P&B apresentado não é nítido. As imagens são granuladas, ruidosas. E mostram. Coisas que ninguém queria ver. E a partir daqui inicio minha próxima (e última) argumentação.
"Garapa permite que o espectador de cinema, que dificilmente é aquele que mora no interior do Ceará, possa conhecer a miséria. Mesmo que estilizada. Mesmo que nada faça para mudá-la. Mesmo que, no fundo, tudo continue na mesma", diz Saulo. Com acerto. Não fui ao cinema esperando que saíssemos de lá marchando rumo ao Ceará para iniciar a revolução contra a fome (certamente nem o cineasta queria isso). O documentário exerce uma importante função no sentido de "mostrar" (se volto tanto a este ponto e porque, para mim, ele parece fundamental). O que ocorre numa exibição como esta são as já citadas crises de [má] consciência. Dois seres humanos atrás de mim pareciam mais interessados em fazer brincadeiras a respeito das moscas e, de vez em quando, soltavam algum comentário plastificado como "ah que triste", "ai, tadinho". Não direi que reações muito diferentes percorreram o cinema, apesar do silêncio feretral ao fim da sessão. Acredito, claro, que muitos saíram dali com o estômago embrulhado, chorando um pouquinho e tentando sofrer alguma coisa. Não negarei que a primeira refeição de muitos após o filme foi compartilhada por um sentimento de culpa muito grande (lembrem-se de que não me excluo de nenhuma das minhas conclusões). Mas é rápido. Por mais que o filme deixe marcas (posso afirmar que deixou em mim), as crises de [má] consciência terminam invariavelmente no Habib's do outro lado da rua. A reflexão, coisa importante que poderia aparecer (nas crises de [má] consciência ou não) após algum tempo , morre antes da primeira esfirra.
---------
(texto sem revisão, desculpem-me)
Gosto de documentários que "mostram" e não de documentários que "demonstram". Defender uma tese em um filme é o primeiro passo em direção ao maniqueísmo, à divisão simplificadora entre "maus" e "bons". Arrisco-me a dizer que, em pelo menos 95% do filme, o diretor seguiu o primeiro caminho. Não digo que o filme todo é "mostrativo" porque há momentos em que a resolução da cena é guiada pelo ser localizado por trás da câmera - inclusive, e lanço aqui a polêmica, sem julgar ou defender coisa alguma, com uma possível defesa de programas governamentais. Mesmo assim, algo que me deixou feliz foi a ausência do recurso fácil à comparação: "esse é a parte rica"; "essa é a parte pobre"; "a+b = a culpa é de 'x'". Em suma, pode-se colocar o documentário na categoria dos que querem "mostrar". É o que faz: mostra. Isso reflete-se inclusive em aspectos técnicos como a filmagem. Em alguns momentos, a câmera torna-se "seguidora" da situação que se desenrola sem o controle (e, arrisco, a previsão) de quem está por trás dela. Ela quer mostrar. Um outro aspecto que cito, e aqui atiro-me ao fogo por ser uma conclusão totalmente pessoal, é a ausência de trilha sonora. Não há a tentativa de sensibilizar o espectador a partir de elementos musicais. À exceção das pessoas que falam, os únicos sons presentes são os do ambiente (que, em muitos casos representam o papel da própria fome/miséria - como no momento em que a "garapa" é fervida, misturada e colocada em copos e mamadeiras)
Não contarei a história do filme. Ela está interessantemente sintetizada na boa resenha "Estética da Fome", de Saulo Yassuda, publicada no site "Cinéfilos" (http://jjunior.org.br/cinefilos/?p=1612). Dialogo brevemente com tal escrito, discutindo o conceito de "estética da fome" (colocado pelo autor, que inicia sua argumentação citando o conceito de "estética da miséria"). Entendo que a caracterização de tal conceito encontra-se resumida neste parágrafo da resenha: "É também de Padilha a direção do documentário Garapa, outro filme mostra a miséria de maneira estilizada para torná-la mais digerível. Mas a diferença é que, em Garapa, a miséria é real, é documentada com três famílias de verdade que moram no Ceará. A diferença é que em Garapa o diretor não carrega nas cores - muito pelo contrário: não há cores. O filme é rodado todo em preto e branco, alto contraste entre a duas tonalidades, o que lembram muito fotos de Sebastião Salgado, que também retrata a miséria. A falta de cores estiliza a miséria, deixa-a mais 'artística', mas não deixa de chocar." Problematizo aqui o conceito de estilização da miséria em Garapa com o objetivo de torná-la mais digerível. Penso ser o contrário! Existe, sim, como bem aponta Saulo, uma estilização, e ela é, sim, feita, entre outros aspectos, a partir da ausência de cores, com uma "miséria real" (complemento isso com um comentário: "sem atores da Globo, como, por exemplo, em Tropa de elite). Concordo com tudo isso. Mas tais características do filme trabalham no sentido de reforçar um estranhamento, e não de amenizá-lo. Tanto que o P&B apresentado não é nítido. As imagens são granuladas, ruidosas. E mostram. Coisas que ninguém queria ver. E a partir daqui inicio minha próxima (e última) argumentação.
"Garapa permite que o espectador de cinema, que dificilmente é aquele que mora no interior do Ceará, possa conhecer a miséria. Mesmo que estilizada. Mesmo que nada faça para mudá-la. Mesmo que, no fundo, tudo continue na mesma", diz Saulo. Com acerto. Não fui ao cinema esperando que saíssemos de lá marchando rumo ao Ceará para iniciar a revolução contra a fome (certamente nem o cineasta queria isso). O documentário exerce uma importante função no sentido de "mostrar" (se volto tanto a este ponto e porque, para mim, ele parece fundamental). O que ocorre numa exibição como esta são as já citadas crises de [má] consciência. Dois seres humanos atrás de mim pareciam mais interessados em fazer brincadeiras a respeito das moscas e, de vez em quando, soltavam algum comentário plastificado como "ah que triste", "ai, tadinho". Não direi que reações muito diferentes percorreram o cinema, apesar do silêncio feretral ao fim da sessão. Acredito, claro, que muitos saíram dali com o estômago embrulhado, chorando um pouquinho e tentando sofrer alguma coisa. Não negarei que a primeira refeição de muitos após o filme foi compartilhada por um sentimento de culpa muito grande (lembrem-se de que não me excluo de nenhuma das minhas conclusões). Mas é rápido. Por mais que o filme deixe marcas (posso afirmar que deixou em mim), as crises de [má] consciência terminam invariavelmente no Habib's do outro lado da rua. A reflexão, coisa importante que poderia aparecer (nas crises de [má] consciência ou não) após algum tempo , morre antes da primeira esfirra.
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(texto sem revisão, desculpem-me)
quinta-feira, 13 de novembro de 2008
Escrever. Ah, sim! Escrever! Horas em que não há mais nada senão dizer. Dizer com letras, caracteres, números, sinais, sussuros esferográficos: contar. Recontar! Dizer e não saber se é compreendido como quer, mas que de alguma forma se faz lido; ao menos. Em um globo particular que se expande em ego e vaidade quando exibido. Ser interpretado. Quando se escreve e divide, a escrita é sem dono. Está no mundo, nas idéias gerais, na esfera pública, aguardando por distintas compreensões individuais que fazem o infinito mundo da muito-estranha crítica. Não há obra igual. Não existe obra única. As reproduções sistêmicas em escala individual fornecem matrizes para o surgimento de uma outra obra em quem as lê. É inútil - há quem diga ser ridícula - a tentativa de adentrar a ex-cabeça do ex-autor: ele morreu na última letra.
.(Não sei julgar isso).
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