Hoje ganhei uma edição impressa da Folha de São Paulo. Nela, pude ler a versão "completa" da matéria de Eliane Trindade sobre meninas que roubavam coisas na Vila Mariana. Aí vão trechos:
"'Quero ser bonita, tia', disse uma delas para a conselheira tutelar Ana Paula Borges, 29, em uma das mais de 20 vezes em que foi encaminhada para atendimento pela polícia no último ano. Negras e mulatas de cabelos crespos, elas dizem querer alisar as madeixas para ficarem bonitas confrme padrão de beleza estabelecido. Usam os produtos na rua. (...) 'Pego o celular das lourinhas que já olham para mim com medo', diz a garota negra, gorro rosa. Ela tem 11 anos, não se acha bela. 'Bonita, eu? Olha a cor da minha pele', corta, diante do elogio."
A reportagem é curta e enfoca o aspecto psicológico das meninas. Talvez eu arriscasse dizer que ela peca por inverter um pouco as coisas: o ponto não é centralmente psicológico, mas social.
Minha vontade de comentar a matéria veio do incômodo que me provocaram as falas das meninas reproduzidas acima. Diz-se por aí que a propaganda, a moda e os estereótipos dialogam com a sociedade e há uma dupla-troca, com os padrões mudando conforme muda o mundo, mas presenciamos uma menina de 11 anos negando, com sinceridade inequívoca e estarrecedora, a possibilidade de se considerar bonita uma vez que não possui uma pele com a coloração "adequada". Diabos, temos que ter muito cuidado ao relativizar o peso de um padrão de beleza. Vivemos falando que "ah, existem brechas, ah, pode-se escapar da indução", mas o peso da propaganda e de um estereótipo amplamente divulgado e tacitamente defendido nas falas cotidianas é enorme. Ver meninas falando que querem ser "bonitas" e, por isso, correm atrás de lentes de contato verdes e alisadores de cabelo mostra o quão nefasto pode ser um estereótipo repetido à exautão - conscientemente - em certos meios e propagado - muitas vezes inconscientemente - pelo falar geral da vida cotidiana. Nefasto porque, no limite, reitera a exclusão social. Nefasto porque encobre de todas as formas possíveis a ideologia que carrega em suas costas.
Nefasto, também, porque, associando-se à questão da exclusão social, retira possibilidades de escolha, condiciona e leva a certas ações vendidas como inexoráveis. É terrível vê-las alisar os cabelo visando deixar a condição de uma pseudofeiúra "natural" - que em nenhuma hipótese, pelo que revelam suas falas, poderia traduzir beleza.
Terminei de ler a reportagem e desfoquei a visão, obtendo uma "vista aérea" da primeira página do caderno Cotidiano da Folha de São Paulo de 28 de agosto de 2011. O texto é uma tripa alinhada verticalmente à esquerda. Ocupando 90% do espaço, uma propaganda do "decorado mais sofisticado do Campo Belo", um "projeto único". "Essencial".
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Em tempo: Laerte diz tudo: http://manualdominotauro.blogspot.com/2011/06/19-20-21-e-22-06-11.html
3 comentários:
não lembro onde, não lembro quando, vi um homem negro na tevê contando que, quando era criança, viu uma propaganda de yakult. pediu para a mãe que comprasse o produto. uma vez em mãos, abriu-o e o passou na pele. pensou que era aquele líquido que deixava branco o menino na propaganda. sempre me lembro disso quando penso em relativizar uma mensagem televisiva. a gente não sabe de verdade a crueldade que a tevê veicula por suas freqüências. e não só ela.
Hoje vi uma propaganda de um creme clareador da pele. Na sequência, uma de creme dental clareador. Quando as ideias serão claras e as consciências limpas?
Neste sábado à noite, cruzando de carro o Largo Ana Rosa, parei no farol. Durante os dois minutos que estive ali, deu tempo de ver tudo. Comentei com André: "Serão elas? Como ficaram famosas..." Atravessavam a faixa uma ou duas meninas adolescentes, acompanhadas de algumas crianças menores, meninos. Negras, com andar agitado, roupas meio simples. Até ponderei: "Será? Pode ser preconceito meu... Só porque correspondem ao tipo suspeito...". A mais velha, mais desenvolta, entrou na Drogaria da esquina, pegou um produto na prateleira, escondeu embaixo da blusa, disfarçou como se estivesse chamando alguém do lado de fora e foi embora, correndo. As mulheres do caixa olharam e seguiram com olhar meio desolado, meio resignado. Tudo isso no tempo do farol. Impressionante ter assistido esta cena. Parecia algo clichê de novela, ou filme b americano. Deu até pra ver de qual prateleira a menina pegou o produto. Quem adivinha? Do setor de tintas pra cabelo.
Fernanda S.
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