Causo
Ruiu um morro em Ouro Preto e veio abaixo o Museu de Mineralogia. Rapidinho encontraram os culpados: pobres, malditos pobres que construíram casas no barranco.
Foi lá o prefeito, acompanhado por câmeras e microfones pontudos, e discutiu com uma desabrigada: "vocês não podiam ter erguido barracos em área de risco para o museu!" "mas não temos onde construir" "então morra, minha filha, morra!". Tudo documentado, os turistas adorando.
Formou-se um mutirão para salvar as coisas do museu; pedras raras, algumas preciosas, agora misturavam-se a esquecidos companheiros orgânicos: corpos de gente que desceu o morro sendo dilacerada.
Poucas horas depois, anunciaram verbas os governos estadual e federal: o museu seria reconstruído e restaurado. Comemoraram os que assistiam ao pronunciamento no telão da Praça Tiradentes.
Esquartejados, alguns cadáveres foram embalados, às pressas e aos montes, em carros do IML. Um cortejo levou-os para o ostracismo póstumo.
Outros caminhões levaram embora a terra que encobriu, por anos, esta história, a mim narrada por velha moça em dia de procissão.
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A proposta que norteou o texto é a seguinte, como descrevi na postagem anterior:
O textinho acima foi escrito para uma disciplina da faculdade. Não sei se já contei aqui, mas estou no quinto ano do curso de História. A proposta do professor foi a seguinte: após uma viagem de campo a Ouro Preto [no dia de Tiradentes!] [na Páscoa!], deveríamos montar um diário de bordo. Mas não era um diário de bordo qualquer. Os textos deveriam ser narrativos e centrar-se em alguns eixos de reflexão. Além disso, deveriam propiciar utilização em sala de aula, visando fornecer materiais para o ensino de História.
Daí surgiram "O galo" e "Causo", continhos que escrevi baseando-me na proposta. O eixo que escolhi foi o de narrar conflitos entre as histórias tidas como "oficiais" e as histórias dos que não são contemplados nos discursos laudatórios sobre Ouro Preto.
A ideia, também, é mostrar que literatura e história andam juntos. Assim, por mais que os textos literários sejam uma ficção, é possível e necessário trabalhá-los historicamente. Os elementos que fornecem para a análise histórica são muito ricos. Acredito que "Causo" seja uma demonstração clara disso.
Por fim, e juro que é a última coisa que eu falo, acredito no valor da narrativa no ensino de História. Sem entrar em questões acadêmicas, dou um exemplo vivido no meu estágio de licenciatura. O professor com quem estagiei narrou aos alunos passagens da Ilíada e da Odisseia e depois recuperou as características históricas da Grécia Antiga nelas presentes. O interesse e a (grande) participação dos alunos me fez ver que aquilo havia dado certo. Ao invés de simplesmente dizer o que eram as obras e apontar suas características históricas, narrou passagens das mesmas, o que fez muita diferença.
2 comentários:
esta foto: http://www.flickr.com/photos/babileta/5692502154/in/photostream/
Doído - e verossímil.
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