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| Foto da Babi: http://flic.kr/p/9DANUs |
Quando levou as mãos ao rosto, Pedro sabia que o galo cantara há muito. Sabia que há muito sua cidade não era a mesma, embora não a imaginasse morta. Sentia algo estranho, sim, ao dar de ombros e troncos com aquela gente que tanto gostava de fotografá-lo. Mas não, nunca se sentira parte de um cadáver.
Diversas vezes executada - a primeira delas em 1711 -, a antiga Vila Rica é exumada e enterrada novamente com frequência quase anual. Tal qual seus minérios, adorna o discurso de gente que bufa, vocifera e gargalha. Um enfeite, sabe-se, é tido por seu dono como coisa defunta, troféu. Pedro está morto.
Mas defuntos não montam tapetes, não fazem cachaça, não fazem política. Cadáveres não oram, não creem, nada querem saber sobre o que envolve o preço do leite ou da cerveja. Mortos não choram.
Pedro cobre o rosto com dramáticas mãos. Imagino que seja ato de fé, tentativa de introspecção em meio aos viventes. Ou nada disso: talvez estivesse no meio de uma risada contida. Quiçá gozasse de todos nós, meros apóstolos de uma morte hipócrita e conveniente.
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O textinho acima foi escrito para uma disciplina da faculdade. Não sei se já contei aqui, mas estou no quinto ano do curso de História. A proposta do professor foi a seguinte: após uma viagem de campo a Ouro Preto [no dia de Tiradentes!] [na Páscoa!], deveríamos montar um diário de bordo. Mas não era um diário de bordo qualquer. Os textos deveriam ser narrativos e centrar-se em alguns eixos de reflexão. Além disso, deveriam propiciar utilização em sala de aula, visando fornecer materiais para o ensino de História.
Daí surgiram "O galo" e "Causo" (que publicarei em breve), continhos que escrevi baseando-me na proposta. O eixo que escolhi foi o de narrar conflitos entre as histórias tidas como "oficiais" e as histórias dos que não são contemplados nos discursos laudatórios sobre Ouro Preto.
A ideia, também, é mostrar que literatura e história andam juntos. Assim, por mais que os textos literários sejam uma ficção, é possível e necessário trabalhá-los historicamente. Os elementos que fornecem para a análise histórica são muito ricos.
Por fim, e juro que é a última coisa que eu falo, acredito no valor da narrativa no ensino de História. Sem entrar em questões acadêmicas, dou um exemplo vivido no meu estágio de licenciatura. O professor com quem estagiei narrou aos alunos passagens da Ilíada e da Odisseia e depois recuperou as características históricas da Grécia Antiga nelas presentes. O interesse e a (grande) participação dos alunos me fez ver que aquilo havia dado certo. Ao invés de simplesmente dizer o que eram as obras e apontar suas características históricas, narrou passagens das mesmas, o que fez muita diferença.
Bem, digam agora se gostaram, se acham que se adequou à proposta e se enxergam possibilidade de utilizá-lo em sala de aula. O texto não é mais meu.
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Recados:
- A Tamires postou um texto falando da viagem mais recente, na qual foi minha parceira de quarto (junto com outros 6 ótimos companheiros). :)
- O Ulisses postou uma série ótima sobre muros, "pichação" e arte. Seguem os links:

5 comentários:
Concordo muito com sua defesa da narrativa... ensinar história acho que é colocar a imaginação para funcionar... é difícil , mas é um desafio diário que temos que enfrentar :D
bjs
aliás, a imaginação na sala de aula para eventualmente estar no poder [maio1968!] hehehehe
HAHAHAH "e juro que é a última coisa que falo": parafraseando o professor assim, na cara dura, e sem nota de rodapé!
Genial, Taís! Imaginação para destruir a crença liberal-status-quo de que o real é irrevogável!
Pô, Babi, essa frase já é domínio público de tanto que o Mau fala!
Também acho muito importante a conexão entre o ensino da história e a narrativa. No mínimo, muito interessante (a ligação e o continho ilustrado).
:)
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