sábado, 16 de abril de 2011

Ibope

Sempre critiquei a aplicação de pesquisas de opinião gerais em salas de aula - o famoso "ibope". Acho que deveria existir espaço para cada professor, individualmente - ou, em certos casos, em grupo -, debater com seus alunos o que dá e o que não dá certo, saber suas opiniões e melhorar seus cursos.

O cursinho onde trabalho faz diversas pesquisas de opinião ao longo do ano. Quando comecei a dar aulas, logicamente passei a ser avaliado. Ano passado, primeiro ibope, tudo certo: notas um-tiquinho-acima-de-seis e nenhuma reclamação. Nesse ano, saiu o resultado de mais uma pesquisa: a nota não sei ainda, mas duas reclamações pipocaram: aula muito lenta e impossibilidade de entender o que o professor fala.

Pelo menos a pesquisa não se restringe às notas. Há espaços para os alunos escreverem. E uma coisa me espantou positivamente: os resultados são repassados aos professores e aos alunos - que podem debatê-los em grupo com a coordenação. Falta ainda abrir espaço para o professor conversar com os alunos sobre isso, mas já é uma prática mais bem pensada que a simples atribuição de notas e conceitos que podem definir demissões e promoções.

Acho que deixei claro que não condeno a avaliação dos professores pelos alunos, mas defendo que isso seja feita de forma dialogada e aberta entre o docente e suas turmas. Alguns dos melhores professores que tive na faculdade, como Maurício Cardoso e Maria Helena Capelato, fizeram isso. Aqui termina a questão pedagógica.

O fato é que eu desabei quando fiquei sabendo das reclamações.

Quanto à aula ser desanimada, não me preocupo tanto, até por ter sido apenas um aluno a dizê-lo. Tenho, infelizmente, pouquíssimo tempo para tratar de temas difíceis, por vezes chatos - a programação é mais apertada que a de um cursinho normal. Nesse cursinho, procuro construir as aulas como narrativas, alinhavando, de tempos em tempos, alguns comentários atrativos, alguma dica de filme, livro, algum caso engraçado. Não consigo contar piadas o tempo todo. E não lamento não ser um piadista. Respeito quem consegue dar uma boa aula, com bom conteúdo e boas reflexões, contando muitas piadas e casos engraçados. Há quem o faça. Na verdade, agrada-me o que diz o professor Nicolai, personagem principal de "Uma história enfadonha", conto de Anton Tchekhov escrito em 1889. Diz Nicolai:
É preciso fazer de si um cientista, um pedagogo, um orador, e as coisas vão mal se o orador vence o pedagogo e o cientista, ou vice-versa. Discorre-se um quarto de hora, meia hora, e eis que, observa-se, os estudantes começam a olhar para o teto (...), um apanha o lenço, outro procura sentar-se mais comodamente, um terceiro sorri aos próprios pensamentos... Isto significa que a atenção está cansada. É preciso tomar medidas. Aproveitando a primeira oportunidade, digo algum trocadilho. Todos os cento e cinquenta rostos sorriem largamente, os olhos brilham alegres, ouve-se por um curto tempo o rugir do mar... Rio também. A atenção se refrescou, e eu posso continuar. (1)
A técnica de Nicolai me parece adequada. Ao menos nas aulas em que dou nesse cursinho. Em outras instituições, com outras turmas, certamente adotaria outras técnicas, outras maneiras de conduzir a aula. 

Aliás, dentro desse mesmo cursinho utilizo outras práticas. Subversivas, tendo em vista que não respeitam o estabelecido. A próxima aula, por exemplo, é sobre fontes de energia. Ao invés de discursar como Nicolai, nessa ocasião aplico uma atividade na qual os alunos trabalham em duplas com um texto que escrevi. Ao final, amarro a discussão, preenchemos juntos, a partir do que eles descobriram lendo o texto, uma tabela que também criei. Ano passado foi uma atividade bem aceita. Dura só uma aula.

De toda forma, não me incomoda tanto ouvir que um aluno acha minhas aulas desanimadas. Observarei melhor minhas pausas, inserções, etc., mas não foi isso que me derrubou.

Fiquei extremamente chateado por alguém dizer que não entende o que falo. Não sou o melhor professor do universo, mas faço o melhor que consigo nas condições em que me encontro. Procuro dar ordem aos conteúdos que passo em aula, narrar de forma clara, não ser autista, verificar as reações da sala, responder às perguntas, insistir quando noto uma cara de "?" na minha frente. E na sala em que leciono as reações foram ótimas! Nem tanto. Alguém não entende o que eu falo.

E aí eu pergunto se minha decepção é pedagógica ou egocêntrica e respondo, retorica e sinceramente, que é os dois, ué, porque eu me sinto mal por não ser o melhor professor do mundo e, assim, não ter conseguido transmitir aos meus alunos tudo o que quis. Sei que é utópico desejar isso, mas, caramba, como se sentir quando alguém diz que não entende o que você fala?

Devo estar exagerando, mas avisei lá em cima que a parte pedagógica tinha acabado. De lá até aqui foi só desabafo. E chega disso porque senão canso vocês também e aí vai ter gente comentando que não entende nada do que eu escrevo e aí o que eu vou fazer, né, pessoal?

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(1) Tradução de Boris Schnaiderman; o texto está na página 124 da edição da Editora 34 de O beijo e outras histórias, publicada em 2006.

8 comentários:

ArTH disse...

Faça uma análise estatística das reclamações. Se a correlação entre sua aula e a reclamação for menor do que 5%, atribua ao acaso :P

Babi disse...

Tô com o Arthur; se você levar o Ibope como uma estatística, há margem de erro e desvio padrão (faça Ocimar em POEB!).

(achei que você ia postar sobre o monstro com chapéu de bobo)

Caio disse...

Bão, se for assim, realmente foi por acaso que reclamaram.

Mas fico preocupado do mesmo jeito.

:)

Babi, o monstro com chapeo de bobo ficou pra depois =*

Babi disse...

é justo ficar preocupado. o maurício também não quer perder 2 alunos na cachoeira embora estatisticamente seja uma boa margem.

Anônimo disse...

Caio, meio enferrujada do ofício de professora, mas exercendo meu lado historiadora: muitas vezes o que pega é o qualitativo e não o quantitativo dos dados. Às vezes basta um comentário negativo para invalidar os 99% incentivadores. Teve uma vez que dando aula no Turismo, houve uma sintonia muito boa entre eu e a sala. Pra você ter ideia, era um esquema de 4 aulas na sequência de um curso de História para Turismo, que normalmente os alunos nem gostam, numa sexta à noite. Na última aula, no momento fechamento do curso, os alunos em uníssono foram elogiosos, teve gente emocionada, com lágrimas nos olhos. E ainda assim eu achei que tinha alguma coisa errada, não é possível que não haja nenhuma crítica. Vai entender a mente demente da gente.
Se isso te consola, na tua história o diagnóstico é mesmo um caso isolado. Então é o cara que tá fora de tom, não você. O problema é que as palavras dele ainda vão ecoar um tempo na tua cabeça.
Abraço,
Fernanda S.

Vivian Valsou disse...

Como disse o André Parisi "ossos no orifício".
Difícil agradar e se fazer claro para todos, mas é a partir de reclamações como essa que nos repensamos.
Se foi só um aluno, provavelmente é um caso a parte. Mas fica aí algo para se auto-avaliar, agora.

=]

Ulisses Adirt disse...

Caio, é completamente impossível fazer com que 100% dos seus alunos entendam vc 100% do tempo (mesmo sabendo q é esse ideal q deve ser buscado pelo professor). Se o número de reclamações for grande, aí sim vc deve se preocupar e tentar descobrir o q há de errado. Um ou dois costuma ser um número mto pequeno (a não ser q a sala tenha dó uns 10 alunos).

Mesmo assim, mesmo pensando isso, tenho de dizer: só de saber q um aluno não entendeu algo, eu já me sinto péssimo. Sei bem como é... :-)

Caio disse...

Ulisses, sei que você me entende, hehe. A sala tem 48 alunos. Bom, acho que ainda estou triste com isso por nunca mais ter dado aula para eles desde então (sim, é muito tempo) e não ter podido ver suas reações. Hoje volto lá.