Em Buenos Aires, momento de sono, Babi não me deixava usar o computador. E eu ali, meio angustiado, fotos de jornais da década de 1960 aguardando edição, resolvi pegar seu estojo de aquarela inerte sobre a mesa e usá-lo pela primeira vez. Nunca havia diluído cores. Desenhei um suspeito Martín Fierro na capa do meu caderno de pesquisa. Não façam isso: a tinta mancha todos os objetos que com ela entram em contato. Isso inclui livros e qualquer coisa que você coloque na mochila. Mas, no fim das contas, achei legal pintar. Resultado: apropriei-me do estojo da namorada, indenizando-a com outro comprado lá mesmo. E comecei a fazer uns trecos. Dessa lavra é a ilustração a seguir. A historinha que a envolve vem logo depois.
"É só colocar um monstrinho aí que fica legal", disse, e desenhou em azul escuro o losangular bichinho. A forma das formas que não se reconhecem sacou logo que era reconhecida e se escondeu, misturando as cores retas que ali se colocavam. Intenção não existe no resultado da arte. Artista é só nome depois de pronta a aberração. O resto se interpreta. Obra que não é, não é aberta. Não. O fino dos traços que nasceram para obedecer e obedecem, às vezes seguidos por paralelas curvas espelhadas. O grosso das coras dominantes que, mesmo assim, não resistem ao apelo do líquido borrão que clama por mistura e vai, ali, dali, dilui, e sai algo como nosso velho conhecido do azul e do vermelho: roxo, que não deu muito certo, já se vê, não tanto, ao menos, que o verde saído do amareloazul que vai no canto, à esquerda de quem olha. É harmonia que vem em tortuosa vereda de cores pinceladas, todas redomadas em arbitrária bruma donde está, olho enigmático, chapéu de tonto, o monstrinho amigo desenhado pela co-autora. Sombria, a ilustração ganha ares de livro infantil, típica confusão alegre de brinquedo.

3 comentários:
ainda gosto da designação co-autora.
Uma beleza :)
hehe, obrigado!
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