Essas crianças gritam, gritam, falam tanto e parecem chamar a chuva daquela nuvem que acinzenta a janela. Sob essas gotas que não toco ou cheiro, gritam outras crianças, deslizam em busca de abrigo. A infância tem dessas coisas: querer fugir da bruma e pensar que existe solução.
Mas como berram esses demônios! Corro deles voltando os olhos para a senhora que, em frente ao quadro verde, sala adulta e sisuda, fala certas coisas impróprias para uma tarde de terça-feira. Ela tem voz macia, melada, e não vence os infantis brados externos dos pequenos que se pegam-pegam e escondem-escondem nas brincadeiras tantas.
“Por que aprender História?” está escrito na lousa e eu tenho só mais dois minutos para rabiscar algo que responda a isso. Passei os oito primeiros minutos do tempo regulamentar redigindo tudo isso até este ponto a-q-u-i-. “Para responder a certas questões com mais perguntas. Para mostrar que o presente não nasceu no mesmo dia que nós. Para perceber que a democracia não surgiu depois da II Guerra Mundial. Para tentar entender por que um partido chamado ‘Democratas’ é de direita. Para tentar compreender por que aprendemos História”. Foi esse clichê aí que eu coloquei na folha.
Ouvi clichês parecidos e, bom, pelo menos o meu estava bem escrito. A professora apontou que história pessoal também é história e, sem perceber, no dia corrido e monovivido, utilizamos métodos históricos de ordenação de pensamento.
Parei de escutá-la e me atraiu de novo a nuvem feia. Contei para mim que quando criança não pude gritar, pular, correr. Não todo dia. Meu todo dia era um cale-se alto, uma concisão de gestos que desaguava no videogame e na parede. Penso, então, que no meio dessas crianças gritantes há uma – menina, menino – que está quieta, parada, taciturna. E quero, caramba!, que ela corra, grite, empolgue-se, esperneie!
Não dá mais. Acabou o recreio, parece, e o silêncio até assusta. A voz lá na frente fala, fala, vaza, esparrama conhecimento e eu, quieto, sou apenas um ser com vida histórica na tarde de uma terça-feira.
6 comentários:
ninino que escreve tão bonito.
no mesmo dia, talvez na mesma hora, minh'aula transcorria numa daquelas salas com paisagem. em meio a discussões sobre os interesses da elite colonial e os da corte, parei, olhando para o lado. um raio de sol batia enquanto uma garoa fina caia. fina assim, parecia neve, disse a marianna. essa é a minha narrativa histórica da terça passada.
Caio, vamos brincar? Vamos?
Que beleza de texto, Caio!
Fiquei pensando nos meus aluninhos barulhentos enquanto lia.
ai, sempre essas tardes de terça-feira.
Babi:
garoava no DH? a usp é mesmo um mundo...
Vivian:
Vamos!
Valdir:
Obrigado! A aula da Kátia Abud foi bme aproveitada nesse dia, hehe. Espero que seus aluninhos sejam barulhentos mas legais.
Helena:
Sempre achei terça-feira um dia meio cinza, meio ímpar, meio gordo.
caía deus em gotículas
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