domingo, 20 de março de 2011

Vida histórica


Essas crianças gritam, gritam, falam tanto e parecem chamar a chuva daquela nuvem que acinzenta a janela. Sob essas gotas que não toco ou cheiro, gritam outras crianças, deslizam em busca de abrigo. A infância tem dessas coisas: querer fugir da bruma e pensar que existe solução.

Mas como berram esses demônios! Corro deles voltando os olhos para a senhora que, em frente ao quadro verde, sala adulta e sisuda, fala certas coisas impróprias para uma tarde de terça-feira. Ela tem voz macia, melada, e não vence os infantis brados externos dos pequenos que se pegam-pegam e escondem-escondem nas brincadeiras tantas.

“Por que aprender História?” está escrito na lousa e eu tenho só mais dois minutos para rabiscar algo que responda a isso. Passei os oito primeiros minutos do tempo regulamentar redigindo tudo isso até este ponto a-q-u-i-. “Para responder a certas questões com mais perguntas. Para mostrar que o presente não nasceu no mesmo dia que nós. Para perceber que a democracia não surgiu depois da II Guerra Mundial. Para tentar entender por que um partido chamado ‘Democratas’ é de direita. Para tentar compreender por que aprendemos História”. Foi esse clichê aí que eu coloquei na folha.

Ouvi clichês parecidos e, bom, pelo menos o meu estava bem escrito. A professora apontou que história pessoal também é história e, sem perceber, no dia corrido e monovivido, utilizamos métodos históricos de ordenação de pensamento.

Parei de escutá-la e me atraiu de novo a nuvem feia. Contei para mim que quando criança não pude gritar, pular, correr. Não todo dia. Meu todo dia era um cale-se alto, uma concisão de gestos que desaguava no videogame e na parede. Penso, então, que no meio dessas crianças gritantes há uma –  menina, menino – que está quieta, parada, taciturna. E quero, caramba!, que ela corra, grite, empolgue-se, esperneie!

Não dá mais. Acabou o recreio, parece, e o silêncio até assusta. A voz lá na frente fala, fala, vaza, esparrama conhecimento e eu, quieto, sou apenas um ser com vida histórica na tarde de uma terça-feira.

6 comentários:

Babi disse...

ninino que escreve tão bonito.

no mesmo dia, talvez na mesma hora, minh'aula transcorria numa daquelas salas com paisagem. em meio a discussões sobre os interesses da elite colonial e os da corte, parei, olhando para o lado. um raio de sol batia enquanto uma garoa fina caia. fina assim, parecia neve, disse a marianna. essa é a minha narrativa histórica da terça passada.

Vivian Valsou disse...

Caio, vamos brincar? Vamos?

Valdir disse...

Que beleza de texto, Caio!
Fiquei pensando nos meus aluninhos barulhentos enquanto lia.

helena. disse...

ai, sempre essas tardes de terça-feira.

Caio disse...

Babi:

garoava no DH? a usp é mesmo um mundo...

Vivian:

Vamos!

Valdir:

Obrigado! A aula da Kátia Abud foi bme aproveitada nesse dia, hehe. Espero que seus aluninhos sejam barulhentos mas legais.

Helena:

Sempre achei terça-feira um dia meio cinza, meio ímpar, meio gordo.

Babi disse...

caía deus em gotículas