Deixa que eu tire o pó de cima da mesa. Ele me irrita, tanto que contém de mim restando nele. Vim aqui resgatar o passado, não. Sou outro, você nem conheço, não me devo tanto abrir. Tremo, eu sei, por bobeira, vergonha, sei lá. Devo ser forte, diga isso. Olha aqui, até parei de suar, estou melhor, palavra.
Mentira de merda. Acostumado que estou a contá-la em eco que só escuto, cometo o erro de dizê-la aos outros. Sempre me estapeia o senso próprio de ridículo, ainda bem. Conheço o processo e não sei se é menos ridículo o que vem agora.
Estou aqui para resgatar, sim, meu passado. É uma ânsia doentia de reconstruí-lo, revivê-lo, mudá-lo. “Ora, o que importa é o presente”, você, todos, cantilenarão para matar o vazio que surge na conversa quando eu digo isso. Não decore suas falas e não me tente ajudar.
Tantos erros, inclusive o primeiro, sobre o qual um dia disseram “agora já foi”, acumulando quantos traumas e faltas forem necessários para preencher um bom relatório psiquiátrico. E quanta porcaria fico falando e falando e perdendo meu tempo vendo fotos de gente que faz hoje o que eu queria ter feito há alguns anos quando poderia e não fiz com uma adolescência (existe isso?) toda jogada entre querer ser algo e dormir enquanto o mundo vinha e arrastava tudo que acontecia fora da bolha.
E aí volto a ver essas paredes que hoje estão pintadas junto com a lousa que não está mais aqui (sim, antes havia duas) e piso nesses azulejos que não têm mais tantas rachaduras nem tantas lacunas. Não há janelas decentes, ainda, mas acabou o risco da porta ficar emperrada para sempre.
Passei de carteira em carteira, amarrotei-me, pensei muito e agora ocupo o lugar da frente, aquele da pessoa que fica de pé, ouve, fala, pergunta, fala. Quando quis estar aqui, há alguns anos, não sofria pelo presente nem pelo passado.
Tentando me livrar dessa sensação de domingo, mergulho na experiência humana e observo outros trajetos – nem tão desconectados assim do meu próprio. Nada concluo, mas investigo.
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