Juan Carlos ficava em um canto da sala de referências da Biblioteca Nacional, entre um terminal de computador quebrado e um retrato de Juan Perón. No meio de suas papadas havia uma boca que soltava, de tempos em tempos, números aparentemente saídos de uma ordem mental que, até então, só ele conhecia. De repente, levantou-se e procurou qualquer pessoa surda que pudesse ouvi-lo. Encontrando, disse a ela, uma senhorita educada: “também trabalho aqui, mas cumpro ordens, ¡ordens!”. A moça, que não havia parado totalmente para lhe dar atenção, apenas virou a cabeça mais uma vez na direção de seu caminho original, demonstrando exemplar inércia cotidiana. Juan, satisfeito, apreciou seu deslocamento saístico.
Eu, que já havia pedido meus livros, cheguei perto do velhinho, querendo entender que diabos ele fazia. Os números pareciam boiar como balões sobre a cabeça revolta do homem. Fui interpelado: "há uma, duas, você, três, ¿o que quer?”. “Nada, aguardo um livro”. Sua fronte me encarava duvidosa, mas percebi rapidamente o vazio daquela expressão. Subitamente, animou-se o rosto e remexeu-se a boca em explicações, certamente decantadas no cérebro: “quando a luz vermelha acender, ¡pronto!, chegou o livro”. Demorou um pouco até que isso acontecesse, mas deu-se o momento e saí, não sem antes saudá-lo com um “chau”. Como resposta, obtive um aceno de cabeça tão triste que parei, corpo apontado para longe, inerte. Registrei, no momento essencial, o retrato do retrato. Se pudesse, pendurá-lo-ia em alguma parede daquele lugar, nos escombros do longo tempo.
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aqui fica o retrato
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