Buzón de tiempo (Correio do tempo, 1999), de Mario Benedetti, é um livro-varredura. Composto por quatro poemas – que “abrem” cada uma das quatro partes da obra – e diversos contos, é um trabalho que transita por presente, passado, presente, futuro, presente, assim mesmo, alternadamente.
Benedetti escreve de forma singela e tocante. Sem ser piegas, e muitas vezes com bom (e ácido) humor, conta passagens de vidas imaginárias que, ainda que possamos inferir o tempo e o lugar, são um simulacro da mais geral experiência humana.
Na primeira parte, intitulada “Señales de humo” (“Sinais de fumaça”), os contos falam de eventos cotidianos, nos quais o acaso, a leveza e a tristeza estão presentes. Também está o passado, mas por meio de fragmentos equilibrados – nem sempre de forma plena. O último conto dessa parte dilui de vez o fio do equilíbrio e traz avassaladoramente à tona o fogo, dando licença a “Buzón de tiempo” (“Correio do tempo”), a segunda parte do livro.
A memória e a busca por elementos que estão perdidos (ou relembram os personagens de coisas perdidas) são as principais temáticas que aparecem nas cartas que a compõem. E há, entre afetos, livros e familiares, um elemento que permeia quase todos os contos: a ditadura. Aqui, tomemos cuidado. Poderíamos entender a “ditadura” como parte da grande experiência histórica humana e a relação dos seres com a autoridade, o Estado, etc. Também. Mas aqui, nesse livro, fala-se da circunstância história das ditaduras latino-americanas do século XX.
Fala-se dos voos da morte, das mudanças de nome, dos choques elétricos, das adoções involuntárias. De algo que se tentou, nas décadas que sobrevieram às tragédias, encobrir. Mas como, se o presente e o futuro estarão impregnados com a fumaça daquelas fogueiras?
Em “Las estaciones” (“As estações”), terceira seção do livro, Benedetti mergulha em querelas interiores: fugas, diários, mais livros.
A quarta e última parte chama-se “Colofón” (“Conclusão”) e é composta por um poema – “El acabose” (“O acabou-se”), uma espécie de resolução de entrada no novo século que então se avizinhava. Algo como um reveillón, sete ondinhas, champanhe e alma lavada (não apagada), mas com muito mais sagacidade e melancolia – afinal, falamos de Benedetti e de uma virada de século; algo maior que um fim de ano em Copacabana.
Com os contos e poemas de Buzón de tiempo, Mario Benedetti permite uma reflexão sobre o papel da história na construção do passado, do presente e do futuro. Varrê-la não significa apenas livrar-se de vestígios, mas guardar o que se considera necessário. E isso pode ser perigoso. O que guardar?
As narrativas. Afinal, a pretensão de guardar tudo – de lembranças a livros, passando por documentos – é despropositada. Que se fale, então, sobre isso. Que se busque alimentar as diferentes memórias. Que o passado não seja tratado simplesmente como empecilho.
Em trecho que me marcou muito, diz o primeiro poema do livro (“Señales de humo”):
“o sea que los signos en el aire
son señales de humo / pero el humo
lleva consigo un corazón de fuego”
(“ou seja: os signos no ar
são sinais de fumaça / mas a fumaça
leva consigo um coração de fogo”)
[Mario Benedetti. Buzón de tiempo. Buenos Aires: Booket, 2009 - edição brasileira: Correio do tempo. Editora Alfaguara Brasil, 2008. Tradução de Rúbia Prates Goldoni]
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